Ana vinha tímida sempre que chamassem. Diferente de quando ela saía por conta para perceber as coisas. Batia com os bicos dos tênis alternando os pés enquanto ouvia sons, quebrava de leve a cintura para os lados conforme a música comandava. Não creio que ela soubesse ouvir com os ouvidos, mas que ela ouvisse com todo o corpo envolvido na energia da música.
Ana mal se sentia. Sentia-se boba acreditando quando diziam que tinha o talento de reproduzir coisas. Sorria por fora mas por dentro mentia o que era aquilo.
Sempre havia tempo demais ou de menos para seus desejos, tudo estava desalinhado e desconjuntado com suas emoções. Vivia as imagens no passado como cenas construídas para o presente. Narrava internamente sua história e falava de si em terceira pessoa. Ana andou, Ana riu, Ana fitou indignada alguma coisa. Ana sempre tinha feito algo que nunca fazia. Só fazia que fazia e gostava de ter feito.
O encontro de Ana com o que desejavam que tivesse feito era sempre muito complicado e triste. Vinha ardido de decepção, com um nó enorme no peito do tamanho de um sapo gigante e gordo. O que fazer?. Fazer, fazer. Viver para dentro as histórias inventadas, maquiar traços de idéias despedaçadas, respirar e sorrir.
29 de mar. de 2010
26 de dez. de 2009
Doença
"Ai, não"
Eu pensei nisso certamente por instinto quando os vi trocando olhares.
Eu afirmei o perigo que corria dentro de mim quando permiti que eles trocassem olhares.
Doença, ele me disse depois. Ela é doença.
A doença da vida dele ou da minha? Ou vida seria exagero? Doença da alma que eu acredito que continua após a vida...
O tempo me ensinou a agarrar as coisas que eu queria pra mim pra sempre. Ele é uma das coisas que eu quis chamar de amor. Amor daqueles que eu sabia cuidar bem pra não faltar. Deixei-me ser sua, sua de tudo. Ele me deixou pela Doença.
A Doença e ele foram felizes por um bom tempo. Acho que quando alguém que procura tanto a cura de si como ele se enfeitiça com esses apelos.
Sempre o fascinou tentar entendê-la, descobrí-la e medir forças, o principal.
Quando ele estava prestes a encontrar a cura, a Doença o levava de volta aos soluços, palpitações e tremores de madrugada.
Logo se foi a paz de caminhar na rua sem medo de ser apanhado por ela e o simples pensar o trazia de volta ao momento de relaxamento que precede uma queda de pressão.
Doença o ensinou a ter alguns medos que não tinha antes por nunca ter andado em terreno tão movediço. De certa forma, ela até o fez crescer.
Ele veio diferente depois dela, mais maduro, mais seguro e mais satisfeito com a vida.
O aceitei pois ele jurou nunca mais tocar no nome dela (até porque não somos mais amigas há tempos) e também porque ainda o quero pra mim. Vivemos assim, varrendo pra lá o passado. Ele vai e volta pra mim, cada dia com mais certeza de que quer voltar. Exceto aqueles dias em que o pego com olhar distraído. Sei que ele pensa nela, mesmo sem precisar.
Eu pensei nisso certamente por instinto quando os vi trocando olhares.
Eu afirmei o perigo que corria dentro de mim quando permiti que eles trocassem olhares.
Doença, ele me disse depois. Ela é doença.
A doença da vida dele ou da minha? Ou vida seria exagero? Doença da alma que eu acredito que continua após a vida...
O tempo me ensinou a agarrar as coisas que eu queria pra mim pra sempre. Ele é uma das coisas que eu quis chamar de amor. Amor daqueles que eu sabia cuidar bem pra não faltar. Deixei-me ser sua, sua de tudo. Ele me deixou pela Doença.
A Doença e ele foram felizes por um bom tempo. Acho que quando alguém que procura tanto a cura de si como ele se enfeitiça com esses apelos.
Sempre o fascinou tentar entendê-la, descobrí-la e medir forças, o principal.
Quando ele estava prestes a encontrar a cura, a Doença o levava de volta aos soluços, palpitações e tremores de madrugada.
Logo se foi a paz de caminhar na rua sem medo de ser apanhado por ela e o simples pensar o trazia de volta ao momento de relaxamento que precede uma queda de pressão.
Doença o ensinou a ter alguns medos que não tinha antes por nunca ter andado em terreno tão movediço. De certa forma, ela até o fez crescer.
Ele veio diferente depois dela, mais maduro, mais seguro e mais satisfeito com a vida.
O aceitei pois ele jurou nunca mais tocar no nome dela (até porque não somos mais amigas há tempos) e também porque ainda o quero pra mim. Vivemos assim, varrendo pra lá o passado. Ele vai e volta pra mim, cada dia com mais certeza de que quer voltar. Exceto aqueles dias em que o pego com olhar distraído. Sei que ele pensa nela, mesmo sem precisar.
6 de nov. de 2009
She speaks english
Pequena matiz de vermelho que fala
Quando quer ser, apreende o ambiente.
Apartada vibra, desdobra pra fora
Fala o que flui de ser, o que der de sentir.
Eu vi aquela parte de mim
Ela canta, marcha, grita
Fala
Inglês.
Quando quer ser, apreende o ambiente.
Apartada vibra, desdobra pra fora
Fala o que flui de ser, o que der de sentir.
Eu vi aquela parte de mim
Ela canta, marcha, grita
Fala
Inglês.
13 de out. de 2009
O guri
Eu vi um guri outro dia no meio da rua querendo grana pra comprar um milho verde. Com doze anos e a pele morena, olhos mais vivos que eu na idade dele. Eu vi o guri e lembrei de alguma coisa. Quis comprar o milho e talvez uma vida nova, mas ele não queria. Ele queria voltar pro pedaço de chão que ele ganhou no viaduto.
Sentei ali no pedaço de chão e chorei, chorei. O guri nem olhou pra mim. Foi pedir o milho pra outra pessoa. Eu nem notei que ele não era mais guri, era mais um. Era mais um jogado aí. Com o lábio craquelado e a fala ensaiada pra pedir. Nem adiantou eu chorar sentada ali. Nem dinheiro nem nada. Os olhinhos que eu vi, quis guardar na minha mente, peguei aquela pequena semente e dei um abraço antes de ir.
Sentei ali no pedaço de chão e chorei, chorei. O guri nem olhou pra mim. Foi pedir o milho pra outra pessoa. Eu nem notei que ele não era mais guri, era mais um. Era mais um jogado aí. Com o lábio craquelado e a fala ensaiada pra pedir. Nem adiantou eu chorar sentada ali. Nem dinheiro nem nada. Os olhinhos que eu vi, quis guardar na minha mente, peguei aquela pequena semente e dei um abraço antes de ir.
De manhã
Uma hora para conseguir o retirar o carro. Cheiro de café. Nó no intestino de manhã. Saí pra comprar quatro pães e um requeijão.
O menino não quis escovar os dentes. Trabalhos inacabados, dinheiro quase no fim. Dois Reais pela meia hora na casa de internet. Rodízio. Café. Homem lançando frases indecorosas para uma moça assanhada. Constrangida, eu. A moça parece que gosta. Que mulher não gosta? Eu. Avenida Dom Pedro parada em frente ao fórum. Vista do parque bonita de manhã. Gente correndo por correr, nem por precisar. Batom no espelho do carro. Lixo. Na rua, na avenida, no canteiro, no carro. Hoje vai fazer 25 graus. Ontem fez 24, amanhã talvez 26 se isso for uma progressão. Funk nos carros de manhã não entendo.
O menino não quis escovar os dentes. Trabalhos inacabados, dinheiro quase no fim. Dois Reais pela meia hora na casa de internet. Rodízio. Café. Homem lançando frases indecorosas para uma moça assanhada. Constrangida, eu. A moça parece que gosta. Que mulher não gosta? Eu. Avenida Dom Pedro parada em frente ao fórum. Vista do parque bonita de manhã. Gente correndo por correr, nem por precisar. Batom no espelho do carro. Lixo. Na rua, na avenida, no canteiro, no carro. Hoje vai fazer 25 graus. Ontem fez 24, amanhã talvez 26 se isso for uma progressão. Funk nos carros de manhã não entendo.
13 de set. de 2009
Roupa velha
No fundo do armário
Em baixo daquelas caixas
Um embrulho envelhecido e perfurado pelas traças
Está seguro ali mantido
Em nome de alguma precisão
A previdência não é cara
Tampouco a preocupação
Viro os olhos pra lembrar
Quando foi a última vez
Que despi o meu orgulho pra provar a insensatez
Que lembrei que o medo é maior que o número trinta e seis
Que a coragem embrulhada já tem cheiro de bolor
Já não respira abafada
Não mais reage apertada
Nem tem cara de desafio
Está ali pra nada, parada
Comida, fedida e entulhada.
No dia em que for vestí-la
Será lavada, passada e tingida
Talvez preta ou colorida
Será usada e pendurada
Junto das outras roupas da vida.
Em baixo daquelas caixas
Um embrulho envelhecido e perfurado pelas traças
Está seguro ali mantido
Em nome de alguma precisão
A previdência não é cara
Tampouco a preocupação
Viro os olhos pra lembrar
Quando foi a última vez
Que despi o meu orgulho pra provar a insensatez
Que lembrei que o medo é maior que o número trinta e seis
Que a coragem embrulhada já tem cheiro de bolor
Já não respira abafada
Não mais reage apertada
Nem tem cara de desafio
Está ali pra nada, parada
Comida, fedida e entulhada.
No dia em que for vestí-la
Será lavada, passada e tingida
Talvez preta ou colorida
Será usada e pendurada
Junto das outras roupas da vida.
5 de set. de 2009
A roda
Amarraram o homem de um jeito a deixar suas pernas livres e as mãos atadas uma a outra atrás das costas, unidas a uma outra corda que era presa no pescoço.
Jamais em sua vida ele olhou as coisas daquele jeito. O jeito que um aleijado pode enxergar sua situação do pior ângulo. E o medo de não sair daquela condição.
Era escuro, os outros o prenderam a uma roda de madeira movida à tração animal e o fizeram andar e andar a noite toda. Nem lhe importou não saber porque o faziam andar, mas como não andar mais.
O dia foi surgindo entre as frestas do galpão. A cela tomava contornos tristes. O chão de pedras gastas, os montes de feno espalhados, os ratos, o teto que ameaçava desabar a qualquer tempo. Seus pés cederam ao cansaço, sentou-se.
Logo chegou o algoz e lhe ameaçou castigo. O homem levantou-se e recomeçou a caminhar no chão que caminhara a noite toda, fez-se uma pausa pra se alimentar e continuou ali a girar, decorando cada canto do local. As foices, ancinhos e pás jogadas, a carroça quebrada e os ratos roendo os restos do almoço. Vontade de fugir, ódio. Era o tratamento dado aos bois que comiam e andavam, comiam e andavam. O que queriam dele?
Dias incontáveis se passaram até que o homem desistiu de pensar, de se revoltar, de olhar para os lados. O carrasco vinha e cumpria as ameaças. Depois de 68 voltas, vinha o almoço. Depois de 231 voltas, o jantar. Seus pés náo desejavam mais fugir. Suas mãos atadas dormiam. O homem era um boi.
O carrasco pensou em abatê-lo e dá-lo aos porcos, dividiu a idéia com o homem.
O homem apenas disse: corte meus pés.
Na liberdade lúcida de hoje, o homem ainda roda numa cadeira.
Jamais em sua vida ele olhou as coisas daquele jeito. O jeito que um aleijado pode enxergar sua situação do pior ângulo. E o medo de não sair daquela condição.
Era escuro, os outros o prenderam a uma roda de madeira movida à tração animal e o fizeram andar e andar a noite toda. Nem lhe importou não saber porque o faziam andar, mas como não andar mais.
O dia foi surgindo entre as frestas do galpão. A cela tomava contornos tristes. O chão de pedras gastas, os montes de feno espalhados, os ratos, o teto que ameaçava desabar a qualquer tempo. Seus pés cederam ao cansaço, sentou-se.
Logo chegou o algoz e lhe ameaçou castigo. O homem levantou-se e recomeçou a caminhar no chão que caminhara a noite toda, fez-se uma pausa pra se alimentar e continuou ali a girar, decorando cada canto do local. As foices, ancinhos e pás jogadas, a carroça quebrada e os ratos roendo os restos do almoço. Vontade de fugir, ódio. Era o tratamento dado aos bois que comiam e andavam, comiam e andavam. O que queriam dele?
Dias incontáveis se passaram até que o homem desistiu de pensar, de se revoltar, de olhar para os lados. O carrasco vinha e cumpria as ameaças. Depois de 68 voltas, vinha o almoço. Depois de 231 voltas, o jantar. Seus pés náo desejavam mais fugir. Suas mãos atadas dormiam. O homem era um boi.
O carrasco pensou em abatê-lo e dá-lo aos porcos, dividiu a idéia com o homem.
O homem apenas disse: corte meus pés.
Na liberdade lúcida de hoje, o homem ainda roda numa cadeira.
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